Estrada de Ferro Sorocabana

Estrada de Ferro Sorocabana

Estrada de Ferro Sorocabana

Estação da Estrada de Ferro SorocabanaFoto de Pedro Neves do Santos, 1924.

Avocação para o comércio, herdada dos tropeiros, fez com que Sorocaba se tornasse, já no século XVIII, um importante centro. A produção agrícola prosperou durante o século seguinte, e, já no início da segunda metade desse século, recebia os primeiros investimentos industriais.

Contudo, a produção algodoeira fazia desenvolver-se ainda mais o comércio dessa matéria-prima, a ponto de a cidade ser conhecida como a “Capital do Algodão”, e não seria mais possível continuar a transportar toda a riqueza do “ouro branco” no lombo de mulas, como no auge do tropeirismo.

A Estrada de Ferro Sorocabana nasceu quatro anos após a chegada de um empresário austro-húngaro ao Brasil, em 1866. Ao chegar a Sorocaba, Luiz Matheus Maylasky torna-se gerente da fábrica de algodão de Roberto Dias Baptista, vindo a ser seu sócio anos mais tarde.

Em 1870, Sorocaba pertencia à comarca de Itu. Empresários sorocabanos foram convidados a integrar a Companhia Ituana, que pretendia estender os trilhos da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, de Jundiaí até Itu. Maylasky liderou os sorocabanos nessa reunião e condicionou a entrada do capital sorocabano à extensão da estrada até Sorocaba. Como os ituanos não aceitaram sua proposta, ele declarou que os sorocabanos construiriam sua própria estrada de ferro interligando a cidade a São Paulo.

Em fevereiro daquele ano, os sorocabanos fundaram a Estrada de Ferro Sorocabana, elegendo Maylasky seu presidente. Quatro meses depois, tinha início a construção da ferrovia que, após três anos de árduo trabalho, foi inaugurada. A 10 de julho de 1875, houve uma grande festa de inauguração. Nessa data, Maylasky chegou com as autoridades em um trem especial e, em meio a muitos discursos, pôde dizer: “- Povo de Sorocaba, cumpri minha promessa, aí está vossa estrada!”

Em pouco mais de um ano depois, os trilhos do progresso chegam até a Fábrica de Ferro Ipanema, em 31 de dezembro de 1876.

No início do século XX, a Sorocabana foi arrendada pelo polêmico capitalista estado-unidense Percival Farquhar, passando a operar como The Sorocabana Railway Company. Com a concordata da Brazil Railway Company, que controlava as empresas de Farquhar, o Estado assumiu o controle da empresa.

Desde o final da década de 1890, diversos protestos se sucediam contra o monopólio da rota do porto de Santos pelos britânicos da São Paulo Railway Company, porém o espírito empreendedor do povo sorocabano conseguiu outra proeza através de sua Estrada de Ferro: a EFS construiu um ramal próprio para o porto de Santos, cujo primeiro trecho foi inaugurado em 25 de janeiro de 1930.

Chalé Francês

As linhas elegantes de um legítimo chalé urbano edificado há 101 anos chamam a atenção de quem passa pela Avenida Afonso Vergueiro. É o Chalé Francês. Ficou assim conhecido por causa das telhas francesas usadas em seu amplo telhado e pelos aspectos formais e decorativos que refletem uma inspiração bucólica e romântica, característica de chalés alpinos e de casas de campo francesas.

Chalé Francês – Serviu de moradia para os engenheiros-chefes da Estrada de Ferro Sorocabana.

Porém, a exemplo das demais edificações e estações ferroviárias da época, é inglesa a sua arquitetura. O imóvel fica no Jardim Maylasky, em frente à Estação Ferroviária e serviu de moradia para os engenheiros-chefes da antiga Estrada de Ferro Sorocabana. É considerado Patrimônio Histórico Municipal e faz parte do conjunto histórico e arquitetônico que contempla a Estação Ferroviária, os Armazéns de Abastecimento, o Setor de Bagagens, a sede do Museu Ferroviário e o Palacete Scarpa.

O Chalé, construído por volta de 1910, revelou na sua última reforma, em 2009, pinturas com motivos florais em art noveau, antes escondidas sob a tinta. O forro do salão principal é original e está praticamente intacto. As janelas da varanda, em pinho de riga, foram restauradas por especialistas de São Paulo.

No Chalé Francês funciona um centro cultural e a sede do núcleo sorocabano do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), além de formar um futuro complexo cultural integrado ao Palacete Scarpa, ao Museu da Estrada de Ferro Sorocabana e à Estação Ferroviária, onde já está instalado o Teatro Estação.

Várias histórias são contadas sobre a vinda de Luiz Matheus Maylasky para Sorocaba. Uma delas conta que ele deixou seu país de origem, o então Império Austro-Húngaro, por volta de 1850. Vinha de uma família abastada e era muito culto devido aos conhecimentos adquiridos durante sua vida militar.

Matheus MaylaskyQuadro em exposição no Museu da Estrada de Ferro Sorocabana.

Consta que chegou a Sorocaba em 1866 e que teria sido acolhido no Mosteiro de São Bento no ano seguinte. Os monges, dotados de vasta cultura, não tiveram problemas em comunicar-se com o estrangeiro.

Ali, o ilustre Frei Baraúna percebeu a habilidade de Maylasky em lidar com máquinas, encaminhando-o à propriedade de Roberto Dias Baptista a fim de que consertasse um descaroçador de algodão quebrado. O conserto da máquina aproximou-o do empresário sorocabano, que o levou para trabalhar consigo em sua fábrica, vindo a tê-lo como sócio posteriormente.

Fundou em 13 de Janeiro de 1867, em substituição ao Club Germania, frequentado só por alemães e seus descendentes, o Gabinete de Leitura Sorocabano, uma entidade social e cultural, com o intuito de unir todos os sorocabanos de todas as origens, fazendo-se não apenas uma liderança empresarial, mas também um líder social.

Maylasky teve, graças a seu empreendedorismo, a capacidade de transformar suas adversidades em oportunidades e prosperar. Sua história serve de exemplo para todos, mostrando que nós também temos esse poder de transformar, quando acreditamos em um sonho e buscamos a sua realização.

Monumento Luiz Matheus Maylasky – Fundador da Estrada de Ferro Sorocabana.

 Museu da Estrada de Ferro Sorocabana – Sala das Comunicações.

Alei do Ventre Livre, também conhecida como a “Lei Rio Branco”, foi assinada pela Princesa Isabel em 1871 e tornava livre toda criança negra que nascesse a partir de 28 de Setembro de 1871.

Antes da promulgação dessa lei, o abolicionista Matheus Maylasky, com o apoio e a perseverança de outros homens de bem que o ladearam, antecipou essa realidade, dando a liberdade às crianças nascidas de mulheres escravas.

Faziam isto, arrecadando dinheiro e comprando crianças e adolescentes escravos e, uma vez de posse dos pequenos, davam-lhes a tão sonhada liberdade, a alforria.

Esses idealistas acreditavam que a liberdade só vinha realmente àqueles que recebessem educação. Com isso, todos os escravos alforriados eram encaminhados para uma escola mantida pela Maçonaria; sabendo ler e escrever, eles conquistavam a verdadeira liberdade.

“Sabendo ler e escrever, eles conquistavam a verdadeira liberdade.”

Sineta – Utilizada pelo chefe da estação para informar a saída do trem.

Com toda autoridade, o chefe da estação, um cargo extremamente importante na época, acionava a sineta. Era a hora da partida. Ao ouvir seu som estridente, os passageiros apressados corriam para tomar seus lugares; aos poucos, era substituído pelo apito forte da locomotiva, o ruído da rodas batendo nos trilhos, o chacoalhar dos vagões carregando pessoas, riquezas, alegrias, a saudade de quem partia na lembrança de quem ficava.

Por décadas essa foi a rotina da Estação Ferroviária de Sorocaba. O som do andar apressado das pessoas, o alvoroço das partidas e o burburinho de tantas chegadas misturavam-se ao dos corações apertados pela partida de alguém querido.

Este é o som da sineta, o som do trem. O sino remete à locomotiva a vapor, que lembra outro personagem importante. Se o chefe comandava toda as rotinas da Estação, quem comandava o trem era o maquinista que apitava para avisar sobre a chegada e sobre a partida.

Havia também toques de apito personalizados, de acordo com a preferência de cada maquinista, costume que atravessou gerações. Das locomotivas a vapor até as locomotivas elétricas, o maquinista sempre tinha seu jeito personalizado de tocar o apito do trem. Dessa forma, as famílias sabiam quem estava tocando e se o trem estava chegando ou partindo.

Essas particularidades dos apitos vão se transformando, e logo se estendem para as oficinas de trabalho, indicando a hora do início, a do almoço e a da saída do trabalho. Uma família que residisse a certa distância da oficina, podia ouvir o som do apito e já sabia que estava na hora do marido, do pai ou do ente querido voltar para casa. O som se propagava pela cidade, fazendo parte da rotina e da vida das pessoas.

Museu da Estrada de Ferro Sorocabana – Sala do Chefe da Estação.

Além da chegada, um dos momentos mais aguardados pelos passageiros que utilizavam os vagões de primeira classe da Sorocabana, era o das refeições, servidas durante as viagens. Nos vagões populares serviam-se pratos prontos, de valor mais acessível.

Cop
o – Com a marca impressa da Estrada de Ferro Sorocabana.

Alguns passageiros, após o uso, levavam objetos como os copos descartáveis, que traziam a marca EFS impressos. Era um suvenir para ser exibido com orgulho para a família e amigos. Para muitos, esse simples objeto lembrava um aroma, um sabor, fosse o do refrigerante, fosse o da companhia durante a viagem.

Quando a linha férrea chegou à região sudoeste do estado de São Paulo, o vagão-restaurante funcionava entre a capital e Itapetininga, onde era deixado. Dali até Itararé, quase na divisa com o estado do Paraná, os passageiros não tinham como se alimentar por 190 km, o que acabou atribuindo a denominação de “Ramal da Fome”, àquela região.

Um funcionário passava entre os passageiros com um avental branco amarrado ao pescoço, improvisado em forma de sacola. Era ali que carregava o refrigerante e anunciava em alto e bom som: “olha o guaraná, olha o guaraná”. Com ritmo, batia com o abridor na garrafa de vidro, de modo que os passageiros sabiam que o refrigerante estava chegando.

Da mesma forma era o anúncio do lanche, que não passava de pão com mortadela, única opção do cardápio. Muitos sorocabanos – famílias inteiras – viajaram para Mongaguá, Laranjal Paulista, Rancharia ou Presidente Epitácio levando o famoso caldeirão de frango com farofa dentro do trem.

Por economia ou preferência pessoal, muitos passageiros traziam o lanche de casa, deixando para comprar no trem apenas a bebida.

O último trem de passageiros a rodar pela Sorocabana foi o Bandeirante Apiaí, em 2001, deixando saudades. Esse trem ligava Sorocaba à região do Vale do Ribeira. Atualmente, o Governo de São Paulo trabalha num projeto que pretende resgatar os trens de passageiros nas linhas da antiga Sorocabana.